quarta-feira, 4 de julho de 2007

O dia em que olhei para o relógio

Olhei para o relógio quando ia a caminho do escritório do meu pai na segunda-feira. 9:20 era o que marcava. Nunca uma hora se tornou tão importante. Chegada ao escritório, a minha avó estava de volta das suas flores. Falámos da minha bisavó. Fiquei a saber que na madrugada anterior, ela tinha passado mal e ido para o hospital. Já lá tinha estado na semana passada com uma pneumonia alimentar. Devido à sua idade, todos já nos estávamos a mentalizar para o pior. Mas mentalizar não é estar preparado... Passaram 10 minutos depois de finalizar a conversa com a minha avó quando me vieram dizer que a minha bisavó tinha falecido. Fiquei a saber depois que a hora precisa da sua morte foi 9:20. A hora em que olhei para o relógio... Fiquei em choque. Não tive reacção por algum tempo. A minha avó estava de rastos, mas a minha tia... Todos estávamos tristes mas a minha tia era aquela que estava mais abatida. Quando o corpo chegou à capela e a minha avó lhe perguntou como é que a minha bisavó estava, a sua resposta foi simplesmente "Está linda...". Nunca tinha visto sequer alguém ficar tão triste. Todos sabíamos que isto ia acontecer. Com os seus 90 anos, ninguém poderia esperar, só por este facto, que ela vivesse muito mais. Mas nunca ninguém está preparado. Eu era a primeira a dizer que ela devia morrer. Ela não vivia. Era um vegetal, entravada numa cama... A minha avó abdicou da sua vida para cuidar da mãe, todas as horas, 7 dias por semana. Eu já me tinha distanciado o suficiente dela para não sofrer tanto. Afinal de contas, para mim era só o corpo dela que ali estava. Não era a minha bisavó, não... Ela abria os seus braços e esboçava um sorriso de orelha a orelha quando me via. Aquela senhora com o seu cabelo grisalho, óculos grandes, mantinha em cima das pernas e o seu croché... Aquela avó que me adorava... já tinha partido à 3 anos... Mas no funeral, ao ver a cova aberta, não consegui deixar de me lembrar da última vez que com ela falei, de quando ela me aconselhou a ter cuidado com os rapazes e eu lhe disse que namorava já há muito tempo. "Há uma estrelinha lá em cima a olhar por mim", disse-lhe. Tudo isso parece distante. Ela deixou de lutar no dia em que olhei para o relógio...

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