sábado, 14 de julho de 2007

Desespero

Nem sei o que pensar nem o que quero. Em última análise, penso que gostaria verdadeiramente de desaparecer por uns tempos. Meses seguidos em que não consigo descansar na minha casa... Várias noites em que assisto a um escritório transformado em sala de fumo de drogas... Cansei-me de ser quem sou e de estar onde estou. O senhor Ricardo é o lorde e senhor da casa, o senhor que fica todo sensível quando não lhe dizemos um olá, mas a mesma besta que bate à minha porta como se a quisesse deitar a baixo e me manda fazer coisas sem saber se posso ou não. Eu deveria estar a estudar matemática. Perdi a vontade que tinha (e ainda era alguma). Cansei-me do senhor sensível, do filho da puta que faz o que quer e o que bem lhe apetece, que fuma drogas em casa porque “é melhor fazer dentro de casa do que fora”. E a minha mãe deixou de ser minha para passar a ser mãe dos meus manos. Há muito que não vejo nela a minha mãe. Pelo menos não aquela que conheci. Deixei de me sentir apoiada em tudo e naquela casa de falsidades não me apetece entrar mais.

Se eu pudesse sair de casa, nunca mais voltava. E neste momento estou-me pouco lixando para quem vai sofrer. Não quero saber de ninguém, já que ninguém quer saber de mim. Espero que cheguem à pequena conclusão de que eu existo, eu vivo também naquela casa, que não são só as vontadinhas daquele filho da puta e da parva da filhinha dele que contam. Eu tenho que entender tudo porque supostamente sou adulta, mas aquele cabrão faz o que quer e bem lhe apetece como uma criança grande. Entre fumar drogas, jogar no seu pc de 1700€ (sim, porque não há nenhum filho da puta que me convença que o trouxe por 250€ e dando o pc antigo à troca...), axar que eu persigo a filha ( agora bem pode dizer isso. Há 6 meses não era verdade)...

E a minha mãe??? Fui fazer um trabalho, telefonou-me e eu como tinha o telemóvel em silêncio não ouvi. Cheguei à meia noite. Deu-me um valente sermão (ela) e ele também me fodeu a cabeça por não ter atendido o telemóvel. Eu desconfiei que o único problema fosse o facto de eu ter o portátil dele (o meu não lê cds). Tive a confirmação quando fiz uma directa e só cheguei às 6 da manhã a casa. Onde estava a extrema preocupação da minha mãe???? Fugiu para parte incerta... Ando infeliz e ninguém consegue perceber isso. Será que disfarço assim tão bem???

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Graveyard Heart

O tempo passa devagar demais quando queremos que ele se apresse... A semana passada foi bem difícil de digerir. Começou mal e acabou com um exame de CG desastroso... Não, não acordei bem. Faz precisamente uma semana que a chama da minha bisavó se apagou. Fui de manhã ao cemitério depositar 4 rosas que tirei do jardim da minha avó. Tenho que fazer o luto de alguma forma, apesar de não saber bem como. Nunca nada disto me tinha acontecido. Tentei alhear-me o mais possível para sofrer menos, mas mesmo assim dou por mim a pensar no que aconteceu. E de cada vez que isso acontece, fico sem vontade para fazer o que quer que seja... Ando completamente desanimada. Completamente. E em casa continuo a ser o fantasma que todos sabem que existe, mas ninguém quer saber onde está ou o que faz. Ando a perder as estribeiras por muito pouca coisa. Reflexo do que se passou na semana anterior, penso eu... Ou talvez um reflexo de ser sempre a última a saber o que se passa, a última a quem se pede uma opinião ou cuja opinião não vale mais... Sim, estou em baixo. Ainda não bati no fundo porque ainda não o encontrei. mas devo estar lá perto. Dizem que já nascemos felizes. Eu também achava isso. Mas a minha felicidade e o meu sorriso parece que me foram arrancados por algum motivo que eu desconheço mesmo. Castigo? Talvez... Amargurei muito nestes últimos tempos. Deve ser o que a solidão provoca nas pessoas. Uma acidez nos sentimentos, uma tristeza no olhar, uma fuga de pensamento.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O dia em que olhei para o relógio

Olhei para o relógio quando ia a caminho do escritório do meu pai na segunda-feira. 9:20 era o que marcava. Nunca uma hora se tornou tão importante. Chegada ao escritório, a minha avó estava de volta das suas flores. Falámos da minha bisavó. Fiquei a saber que na madrugada anterior, ela tinha passado mal e ido para o hospital. Já lá tinha estado na semana passada com uma pneumonia alimentar. Devido à sua idade, todos já nos estávamos a mentalizar para o pior. Mas mentalizar não é estar preparado... Passaram 10 minutos depois de finalizar a conversa com a minha avó quando me vieram dizer que a minha bisavó tinha falecido. Fiquei a saber depois que a hora precisa da sua morte foi 9:20. A hora em que olhei para o relógio... Fiquei em choque. Não tive reacção por algum tempo. A minha avó estava de rastos, mas a minha tia... Todos estávamos tristes mas a minha tia era aquela que estava mais abatida. Quando o corpo chegou à capela e a minha avó lhe perguntou como é que a minha bisavó estava, a sua resposta foi simplesmente "Está linda...". Nunca tinha visto sequer alguém ficar tão triste. Todos sabíamos que isto ia acontecer. Com os seus 90 anos, ninguém poderia esperar, só por este facto, que ela vivesse muito mais. Mas nunca ninguém está preparado. Eu era a primeira a dizer que ela devia morrer. Ela não vivia. Era um vegetal, entravada numa cama... A minha avó abdicou da sua vida para cuidar da mãe, todas as horas, 7 dias por semana. Eu já me tinha distanciado o suficiente dela para não sofrer tanto. Afinal de contas, para mim era só o corpo dela que ali estava. Não era a minha bisavó, não... Ela abria os seus braços e esboçava um sorriso de orelha a orelha quando me via. Aquela senhora com o seu cabelo grisalho, óculos grandes, mantinha em cima das pernas e o seu croché... Aquela avó que me adorava... já tinha partido à 3 anos... Mas no funeral, ao ver a cova aberta, não consegui deixar de me lembrar da última vez que com ela falei, de quando ela me aconselhou a ter cuidado com os rapazes e eu lhe disse que namorava já há muito tempo. "Há uma estrelinha lá em cima a olhar por mim", disse-lhe. Tudo isso parece distante. Ela deixou de lutar no dia em que olhei para o relógio...