domingo, 21 de fevereiro de 2010

Emancipação

O choro é libertador. Liberta a alma de tudo o que queremos deitar cá pra fora quando as palavras não o conseguem expressar. Libertam de tudo o que é mau, pelo menos por um pouco. A tristeza não se apaga com uma borracha. É persistente, teimosa, e fica sempre por perto a vigiar mesmo nos momentos mais felizes.

Hoje sinto-me no lodo. Não consigo bem dizer porquê. Muito tempo a pensar na minha vida, talvez. Quero dar um rumo diferente a esta porra desta vida, mas não consigo. Não por falta de vontade, mas por falta de recursos. Queria emancipar-me, mas sem receber o meu ordenado a tempo e horas, é impossível sequer pensar nisso. Quero sair deste buraco que já não chamo casa há muito. Quero sair de perto da presença abominável de uma besta que habita aqui há tempo demais. E que tem tempo a mais para implicar comigo. Quero sair do sítio onde me foi prometida protecção... E que já há muito não protege ninguém.

Tenho vergonha das pessoas que me rodeiam. Tenho vergonha de mim própria. Quando faço uma introspecção... Nem sei dizer que qualidades tenho. Não sei o que as pessoas vêem em mim. Sinto-me inútil. Sinto que não sei fazer nada, pelo menos nada de relevante.

No trabalho não tenho motivação. Ora porque me deitam abaixo com as conversas paralelas, ora porque sou mais "bruta" e levam a mal, ora porque... não tenho vontade de me levantar da cama de manhã. A desmotivação é muito grande. E os problemas dos outros são sempre gigantes, os meus são ninharias. Estou farta de estar nesta casa. Casa que, bem, é mais minha do que da besta, mas que eu não sinto como lar há muito.

Quero um canto só pra mim, um poiso "meu". Estou farta de ser perseguida. Já lá vai 1 mês e meio. E a minha mãe se não diz nada é porque concorda. Se a confronto, nada diz e abaixa a cabeça... Aprendeu a fazê-lo desde que está com este estupor e agora é assim sempre. Estou só. De uma forma que nunca pensei que chegasse a acontecer. Como me vêem rir, pensam que a minha vida é um mar de rosas. Que "está tudo bem". Não está. Atravessam na minha mente pensamentos que nunca tive. Maus. Muito maus. E dói... pensar que não se tem ninguém. Que está tudo consumido pelos seus próprios problemas. E quem diz que se preocupa comigo... Não sei... Duvido de tudo o que me é dito. Porque não acredito em ninguém.

Vou andar a ouvir bocas até ao fim dos tempos, sentir vergonha por actos de fulanos que nada me são. Anda por aí armado em Rambo, a mostrar pistolas, fazer ameaças e andar à porrada para quê? Para ser mais homem? Ou melhor, "homem"?

Confrontei-o na sexta, porque depois de ter chegado a casa do trabalho, vejo um recado no frigorífico que dizia de forma fantástica que cá em casa "não há escravos" e que "quem usa a cozinha tem que a limpar também". A minha primeira reacção foi rir. Fui para o quarto mas remoí no assunto. Quando voltei á cozinha pronta para armar escabeche, o cobarde já tinha tirado o recadinho do frigorífico. Quando lhe perguntei o que ele tinha contra mim disse que não tinha nada. Que estava a fazer tudo isto porque "a tua mãe agora é uma escrava e eu estou a ver que tu não a ajudas em nada". Bem... isto vindo de quem fica em casa o dia todo a pastar, de manhã fica a roncar até às tantas e de noite a arrotar, beber cerveja e ver televisão até de madrugada.... é obra. Até porque devo ser a pessoa que menos tempo passa em casa. Mas tudo bem... Só quero mais estabilidade. Próximo passo: sair de casa.

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